Tem hora em que a gente esquece que é ser humano, frágil, cheio de limitações. E quando nos descobrimos assim é um verdadeiro desespero. Eu havia me programado para, em minha última semana trabalhar e aproveitar meus últimos momentos de criadora de magia, e comprar tudo que faltou, sair com todo mundo que eu não sai, aproveitar os parques... doce ilusão! Desde que cheguei tenho superados todos os meus limites físicos e psicológicos, meu corpo gritou e eu ignorei várias vezes dizendo para mim mesma: você dá conta! E dei sim, mas só Deus sabe a que custo. Somos adaptáveis ao clima, ao ambiente, às pessoas, mas acho definitivamente que não somos adaptáveis a aquilo que não faz parte do ciclo da vida. Eu tive 3 gripes muito fortes desde que comecei essa vida de confinamento em uma fantasia apertada pesada e abafada. Mas ignorei, sabia que meu corpo encontraria uma maneira de se adaptar, pois é assim que eles explicam para gente. Na terceira me incomodou mais que as outras e decidi ir ao médico, que por aqui fica muito atrás do Brasil os PS da vida. Chegando lá fui diagnosticada com sinusite alérgica provavelmente causada pelo produto químico que usam dentro das cabeças. Pensei: tudo bem, faltam só três semanas. Tomei os remédios e continuei minha rotina. Eis que há quatro dias acordei parecendo que tinha sido atropelada por um caminhão. Peito doía, tosse seca, cabeça pesando uma tonelada e a garganta incomodando para engolir. Fui ao trabalho mas voltei para casa, eu não daria conta de passar o dia daquele jeito. No dia seguinte não melhorei, fiquei em casa de novo, comprei pastilhas para garganta, muita água e vamos que vamos! Terceiro dia decidi ir e ver no que dava, pois ouvi que dar Call Sick( faltar por qualquer razão mesmo doença) na última semana é proibido e pode te terminar do programa. Fui ingênua, acreditando que um gerente olharia para minha cara em algum momento do dia e diria: vai embora você não está bem. Só que aqui os criadores de magia não vivem um conto de fadas, e se faltar, seja porque for, você não recebe, eu pago aluguel aqui, e era necessário fazer ao menos o suficiente para o aluguel. Sendo assim insisti e fiquei..pensava: só mais um set..menos um set... Foi o dia mais longo da minha vida e mais duro também. A tosse piorou, a garganta tampou de vez e agora eu sentia dificuldade em respirar. Esperei como uma boa escrava acabar meu horário de trabalho e fui para casa. Liguei para o anjo da minha vida aqui, o Kamal, e aceitei o convite que ele havia me feito há dois dias de me levar ao hospital. Saimos as 22h(larguei seviço as 20h). E resumindo tudo: tive a pior e mais longa noite da minha vida. O Hospital que conseguimos atendimento era mais longe, e o Kamal tinha que acordar cedo para ir a aula, então fiquei sozinha. Foram meras 6 horas e meia entre chegar, passar pela triagem, esperar meras 4 horas para entrar de fato para a área médica, ser atendida e diagnosticada SEM SER MEDICADA e sair de lá com uma receita na mão. Chegando em casa, fui direto à farmácia,pois a garganta já não passava nem ar direito, o que consegui com a minha síndrome de super mulher foi uma Infecção generaizada das vias respiratórias, onde a garganta é o ponto crítico, seguida do ouvido que purga e está tampado, o nariz que está congestionado e o peito que está cheio e dolorido. Menos mal, eu não tenho pneumonia(apesar de que difícil de acreditar, pois não fizeram exames) nem a tal Gripe perigosa que os americanos tanto temem. Razão: série de gripes mal curadas e minha insistência em cheirar a porcaria do produto que passam nas cabeças dos personagens. Voltando à farmácia, pasmem: só abria as 8, e eu cheguei as 6:30, ai eu disse: tudo bem, liga para a que é 24horas e peça o remedio que eu aguardo em casa. E a resposta: NÃO TEMOS DELIVERY DE REMÉDIOS! Ou seja, se tiver que morrer, se estiver sozinho e não tiver como sair de casa para ir DE CARRO procurar uma farmácia 24hrs você vai morrer mesmo. A farmácia aqui é dentro de uma rede grande de supermercados e é a mais conceituada, o supermercado é 24horas mas a porcaria não. Nesse momento eu desabei. Estava morrendo de fome, de sono, fraca e com muita dor, eu só queria a porcaria do remédio. Mas não adiantou meu choro nem a minha exposição de fraqueza, voltei para casa num estado deplorável, falei com meu marido e decidi dormir se conseguisse. E eu consegui graças a Deus. Acordei coisa de 4 horas depois sem conseguir engolir a minha própria saliva, criei coragem e fui de volta para a farmácia. Chegando lá me pediram mais30 minutos pois um dos remédios que o médico receitou era manipulado(o que descobri só em casa, lá ele só disse: 30 min, volte em 30 min e só). Sentei no chão, me entegando completamente ao desespero, e disse, tudo bem, estou esperando. Demorou pouco, e sai de lá com o bendito remedio e alguns dólares mais pobre. Tomei o remedio fui tentar comer uma gelatina...não prestou. Resolvi dormir de novo. Aos poucos estou conseguindo beber água, e descobri uma sopinha que comprei há um século no armário. Kamal me trouxe suco de pêssego e to indo, passando pelo dia. Um dia ruim... Me preocupo agora com as malas que estão ainda por fazer, com o trabalho que faltei e o aluguel que precisa ser pago. Penso em como será minha viagem daqui há dois dias se a febre persistir. Mas decidi reagir, pois não tem outro remédio. Estou aqui sozinha, por mim mesma e posso contar somente com minhas próprias pernas e braços, então bora nessa não é? Mas confesso que nunca quis tanto minha casa, meu pai e minha mãe, meu marido para cuidar de mim, minha madrinha para levar coisinhas gostosas para eu comer e a vovó para dar um dengo. Não tive nunca uma infecção tão séria e dolorida como essa, não que me recorde e não estou me sentindo bem. Somos mesmo frágeis, mas ao mesmo tempo temos uma força interior que nos motiva e nos fortalece. Estou buscando a minha. Eu realmente acredito que toda doença é no mínimo 50% emocional, então vamos tratá-la e passar por cima dela. Ainda quero aproveitar meu último dia e tentar ir aos parques, mas a essa altura, já me basta conseguir comer e engolir sem dor. Definitivamente estou pronta para ir para casa, mais do que nunca!
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