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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Meu melhor pedaço

"Oh, pedaço de mim
 Oh, metade adorada de mim
 Lava os olhos meus
 Que a saudade é o pior castigo.."

Ontem, 28 de Janeiro de 2016 perdi um pedaço de mim, o melhor deles. Mesmo ciente de que fizemos o que deveria ser feito , a sensação de impotência, o vazio e a dor insistem em superar a ideia de justiça nessa perda.

Arthur foi muito mais que um cão, foi um filho, um companheiro de aventuras, um chamego, um reizinho, cheio de personalidade. Participou intensamente das nossas vidas em seus quase 15 anos conosco. E consequentemente de todos que nos cercaram durante esses anos.

Chegou em 2001, miúdo, gordinho, parecia pintura! De gravatinha borboleta, orelhinhas perfeitamente arredondadas e desproporcionais ao seu pequeno tamanho, tropeçava nelas com frequência. O Tio Franz se divertiu bastante nessa época, fazendo-o tropeçar e rolar sobre as orelhonas. Trazido pelo querido Fred, um presente. O melhor presente da vida! Uma carinha de bravo, cheio de pulgas, do canil King Winner, de onde veio seu sobrenome. Arthur do King Winner! Nome de Rei! Tentamos Catatau quando chegou, não pegou... Por um outro dia chamou-se Igor, até descobrirmos que havia um pato em um filme infantil com o mesmo nome. Foi quando meu vizinho, Arthur, criança foi conhece-lo e disse: Ele devia se chamar Arthur, nome muito mais bonito e forte. E pegou! Algumas vezes houve bagunça quando eu gritava pelo meu Arthur, e o querido Arthur vizinho chegava da janela em resposta..rs. Ou na fazenda, quando os 3 Arthur da turma se reuniam, e meu Tutu fazia arte...rsrs 

Desde cedo Tutu tinha uma personalidade impar. Resmungão, nunca gostou de colo, mas gostava de calor humano, de estar perto, o que é bem diferente! Ganhou nossos corações no instante que nos encontramos. Era a coisa mais fofa e gordinha desse mundo. Comilão, nunca teve o tal "senso de saciedade", enquanto houvesse o que comer ou mastigar (mesmo que não fosse comestível) ele comia. Como comia! Comeu de um tudo! Até super bonder por um descuido em um dia de faxina. Passamos um sufoco, e horas com água quente para tirar toda a cola da boca dele. Ganhou lábios cor de rosa depois disso... rs.

Ainda bebê, Tutu viveu conosco um baita susto, capotou com a gente 6 vezes dentro de um carro na BR040. Sofremos um acidente que tinha tudo para ser fatal em Novembro de 2001, ele tinha apenas 2 meses de vida, mas não se machucou, aliás nenhum de nós 3 (eu, Jethro e o Felipe-Todynho) machucou dado a gravidade da situação. Meu maior desespero não foi pelo acidente em si, mas quando o vi nas mãos de uma criança e não podia levá-lo dentro da ambulância conosco. Entrei em pânico, achei que nunca mais o veria. Mas Deus é um cara bom, e justo. Tudo se encaixou perfeitamente, e no caminho para hospital já havia conseguido fazer com que ele fosse buscado. Ao chegar em casa, lá estava ele, sem nenhum arranhão! 

Tutu sempre foi forte, e cresceu rápido. Como cresceu! Do filhote miúdo ao maior Beagle que conheci na vida. Comia de um tudo: melancia, morango, cana, manga, tomatinho cereja. Lambia as tampas dos nossos iogurtes, e as embalagens tb. Queria qualquer coisa que estivéssemos mastigando.Teve de um tudo que se possa imaginar. De otite a conjuntivite. Mas as idas ao veterinário se deram mais por artes do que por doenças. Comeu um leitão inteiro no Natal, sandálias, pano de chão, ovo de páscoa, vários chocolates, muito lixo (como revirava um lixo!) e aprendeu a fazer armadilhas para conquistar o que queria. Certa vez fez o Jethro tropeçar com um prato de almondegas, que antes de atingirem o chão, já estavam na barriguinha dele. Cãozinho esperto!

Ele era mesmo muito lindo, chamava atenção por onde ia, e como ia comigo para tudo que era lado sempre, chamava bastante atenção. Gostava de carro desde bebezinho, mesmo tendo passado por um susto, sempre deitou e dormiu em todas as nossas viagens.

Ele foi apadrinhado, pela Quequel, que o tomou para si como afilhado e foi a melhor madrinha de todos os tempos. Com direito a bilhetinhos sobre o que ele comeu, vomitou, fez de bagunça enquanto a mamãe trabalhava. Ganhou da Quequel poesias, vários petiscos e presentes. E quando se encontravam ela cantava para ele fazendo carinho, sentada no chão ao lado dele, coladinho em suas pernas(nunca no colo): " Meu Arthurzinho tem três cores, tem três cores meu Arthurzinho, se não tivesse três cores, não seria meu Arthurzinho..." rsrs. A gente já riu muito disso tudo. Inclusive porque alguns anos depois, ela teve um sobrinho-neto com mesmo nome, e se embaralhava um pouco com as musicas para os dois... 

Perto de seu primeiro aniversário, conhecemos o Dr. Valter, do Vether. Depois de passarmos por todos os tipos de veterinários possíveis, que o diagnosticaram até com epilepsia(erroneamente), quando na verdade ele era alérgico a parasitas. Imagina? Um cão alérgico a pulga e carrapato? E alergia seria, ao ponto de fechar a glote. Arthur e o Dr. Valter se amaram desde o primeiro encontro, quando chegávamos no Vether ele ia correndo para porta do consultório e arranhava, chorava, rolava pedindo atenção ao amigo veterinário. Quem por lá trabalha ha muito tempo tem isso até filmado...eu não tenho, uma pena! Já viu criança gostar de medico? Ou cachorro de veterinário? Pois alí a cumplicidade foi de imediato, e foram grandes companheiros por toda a vida. Já corremos algumas vezes para o veterinário por conta dessa alergia ou alguma dermatite. Mas nunca deixamos de fazer nada por isso. Antes pelo contrário, o nosso lugar favorito no mundo todo sempre foi a fazenda. Andávamos a cavalo juntos por horas a fio, eu cavalgando, ele latindo para tudo que se mexia no caminho, Rei do pedaço. Adorava nadar! Onde fôssemos e houvesse água, ele nadava. Até que o Tio Franz, por um descuido, brincando de vale tudo com ele (ele curtia bem), deu um balão na beirada de uma piscina e ele tomou um mega caldo! Nunca mais entrou em piscina...mas só em piscina! Continuou nadando em rios, lagos e afins...

Desde bebê dormia na cama comigo. Quando ele tinha quase 3 anos, eu e Jethro nos casamos, e ele passou a dividir a cama com nos dois. Sabia a hora de dormir no sofá, mas a verdade é que a cama foi mais dele que nossa. rs A casa era toda dele, nossa vida foi repleta de pelos, e os mais chegados não ousavam ir de preto na nossa casa. Alias em nossas casas... mudamos bastante em 12 anos de casados, e ele se adaptou a cada casa de sua própria maneira. Mesmo bagunceiro, ele sempre foi educado, nenhum xixi ou cocô fora do lugar. E sofreu com isso. Quando não tinha área privativa, ele passava mais de dia sem fazer suas necessidades se não o levássemos na rua, e quando fazia, chorava de dor por ter segurado, tadinho.

Quando novinho foi muito arteiro, todo dia tinha uma novidade esperando em casa... rs. E quando não tinha nada, ele nos recebia com o tapete do banheiro, uma roupa arrancada do varal (ele voava, eu juro!) ou um pano qualquer na boca, como quem diz: olha o que eu fiz! Me da atenção! rs

Fomos para a Nova Zelândia em 2007, ele ia junto mas acabou que fomos na frente, e os 3 meses que ele passou sem a a nossa cia, branquearam consideravelmente seus pelos. Foi muito bem cuidado pelo Tio Thiago, e paparicado por todos, o Primo saia com ele e não faltou carinho. Mas faltou a mamãe dele. Voltamos logo e algo havia mudado. Um cãozinho mais carente que nunca nos esperava, e depois disso, cada mudança para uma casa nova era um drama para ele. Entrava nas malas, nas caixas como quem dizia: Não me deixem! rsrs 

Arthur conversava, eu juro! Com o passar dos anos foi desenvolvendo novas técnicas de persuasão e chegou a de fato faltar falar. Mas conversava, nosso amigo Flávio que o diga! Quando ele soltou um  "uhum" ao ser perguntado se estava curtindo o carinho. rs Segundo a Aninha, ele "contava' todos os dias para o Papai dele como havia sido o dia, grunindo, latindo, chorando, uivando sempre que o Jethro chegava do trabalho. Era uma conversa de amor. 

Ele tinha uma ligação diferente com cada um ao seu redor. Com o Primo competia puns, e brincava de lutinha. rsrs Com meu pai virava criança, os dois. Com o Thi era cúmplice, amava os carinhos que recebia. Com a Tatá e o Gegé, eram meio irmãos, brigavam por espaço no sofá, na cama..rs.Com o Nem ele dividia biscroks, meio a contragosto, e posava de machão na rua, latindo para tudo e todos. Acho que todos os nossos amigos próximos tem algo a contar que viveu com ele.  Sempre foi paciente com as crianças que nos cercaram, e não foram poucas. Sempre foi o que apanhou dos cachorros na rua, e eram sempre menores. 

Na fazenda roubou queijo, depenou pintinho, catou carniça no mato, matou rato do mato embaixo da mesa do café, bem aos nossos pés.Comeu e rolou no estrume de vaca. Deixou patinhas de lama registradas nos lençóis, e tomou banhos de chuva, de lama e de rio por la. Foi companheiro da Priscilinha, que ia a frente juntando os bois, e ele logo atras latindo como se o feito fosse dele. rs 

Arthur foi envelhecendo, e quanto mais velho, mais carente, mais cheio de truques e vozes para nos levar a realizar todos os seus desejos. Com a idade vieram as visitas mais constantes ao veterinário. Em uma das cheirada dele por tudo que era canto, há cerca de dois anos, encontrou um veneno para rato, que por descuido algum vizinho deixou cair, e quase morreu! E nós quase morremos junto. Mas ele era forte... E sempre muito mimado no Vether. O Dr. Valter, quando precisava o internar, como nessa vez do envenenamento, o entendia, e sabia que ele não gostava de ficar por la..uivava, chorava. Só gostava de ir a passeio. Então, em 7 dias de internação, todo plantão do Dr. Valter o Arthur estava com ele no consultório, nas horas vagas, ao invés de no canil. Sem apetite, ruinzinho do estomago, sem comer ha cerca de 3 dias, eis que o Dr. Alberto arruma uma sopinha de macarrão e legumes para ele e dali há dois dia ele estava forte, de volta ao conforto da nossa casa. Eles sempre foram excepcionais com o filhote.

Arthur foi companheiro nas perdas que sofremos durante esses 14 anos. Perdi minha avó, perdi amigos, perdemos a Quequel, perdi negócios importantes, que achei que fossem mudar minha vida! Perdi amizades, perdi o ar e o prumo. E ele esteve ali, grudadinho em mim, com carinha de pidão, aconchegado, e nessas horas se permitia ser abraçado e esmagado por mim. Arthur foi companheiro de viagens, mudamos bastante nossos planos e destinos para que ele pudesse estar junto na maior parte das vezes, e a cada escapada, fosse para fazenda, para uma pousada, um sitio, era uma nova aventura. Sempre pertinho, sempre grudadinho. 

Em 2013, já um senhor de idade, foi o astro da noite em nossa renovação de votos. Ele levou as alianças, vestido de gala e fez muito marmanjo chorar ao entrar. rs Foi lindo e especial. Nunca esqueceremos.

Acontece que os cães, já nascem puros, sabendo amar da forma mais fiel e inocente de todas. Acho que por isso a vida deles é tão curta. 
Tutu passou a tomar vários remédios depois do envenenamento, e esses remédios foram só aumentando. O corpinho dele começou a envelhecer rápido, e em pouco mais de um ano ele se tornou um cãozinho idoso, com dois bicos de papagaio na coluna, artrite e um cansaço... O coração já precisava de ajuda de remédios para se manter firme. Não podia mais dormir na cama, pois não conseguia mais subir, e nos últimos tempos, mesmo com a escadinha que compramos para ele, andava caindo demais, cortamos a onda, para o bem dele. Parou de subir no sofá, onde ele tirava vários cochilinhos e dormia o dia quase todo na nossa ausência. Comer passou a ser algo obrigatório, e não mais prazeroso. Até que os rins falharam.

Por 8 dias tentamos de tudo. Os exames eram ruins, foi internado sem comer há 4 dias, e assim permaneceu os outros 8 dias. Não conseguia comer. Repetimos uma segunda vez, voltaram ruins, insistimos uma terceira vez, até que não havia mais o que ser feito. O filhote deixou de ter brilho nos olhos, andava incomodado, tremendo muito, mal andava...
Tentamos de toda forma acreditar que era mais uma aventura, e que ele, especial como É, sairia dessa mais uma vez, surpreendendo a todos. Mas ele não quis... O corpinho fraquejou, o coração estava cansado e assim o deixamos descansar. Apesar de todo o profissionalismo e carinho do da equipe toda do Vether, e da paciência do D. Cristóvão em nos explicar o passo a passo da eutanásia, mostrar que não havia sofrimento, permanecer conosco até o finalzinho e nos deixar a vontade com ele depois... Foi um dos momentos mais difíceis de toda a minha vida, até aqui.

Já sinto falta do cheirinho dele, da barriguinha, das patinhas, das orelhas! Parece um sonho ruim, do qual acordaremos em breve. Sinto que parte de mim se foi com ele, para um lugar melhor, assim acredito. Onde terá Quequel cantarolando, Priscilinha e todos os meus cãezinhos que se foram antes dele para brincar, e que um dia, a gente se encontrará de novo. Sem dor, sem sofrimento. 

Por hora, vamos daqui, tentando acordar desse pesadelo. Acostumar com a vida sem ele. Tentando guardar somente o que foi bom, o que foi alegre. E apesar da dor, uma gratidão imensa habita em nós, gratidão pelos 14 anos e 5 meses que o tivemos por perto. 

Perdemos nosso filhote, nosso companheiro, nossa alegria. A casa fica sem vida sem ele, e a vida muito mais sem graça, sem pelos, sem ele... Vamos daqui, vivendo um dia de cada vez, na certeza que o tempo, senhor de todas as coisas nos acalente, e transforme logo essa dor em saudade, e pare de latejar assim como agora.

Mil beijos filhotinho, nosso Bigú! Que nosso próximo encontro seja bem mais feliz que o nosso último. 

Te amamos aos litros! 























"Sempre precisei, de um pouco de atenção, acho que não sei quem sou só sei do que não gosto, e esses dias tão estranhos, fica a poeira se escondendo pelos cantos.... e nossa história não estará pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar, e até lá, vamos viver! Temos muito ainda por fazer, não olhe pra trás, apenas começamos! O mundo começa agora! apenas começamos..."
Legião Urbana